blogconstantine26“Primavera.
Tudo desperta e segue em seu caminho.
Tudo segue vivendo.
Tudo exceto eu.
Estou morrendo”.

Assim começa uma das mais emblemáticas histórias do mago canalha, John Constantine, publicada em 1991 nos títulos Hellblazer #41 à #48, e escrita pelo Irlandês Garth Ennis, com ilustrações de Will Simpson.

John Constantine foi criado por ninguém menos que o aclamado Alan Moore, em 1985, nas histórias do Monstro do Pântano, já tendo feito diversas participações em outras revistas da DC Comics, mas sem dúvida seu lado forte está no selo Vertigo, linha da DC para títulos mais maduros.

constantineAo começo da história, Constantine descobre que está morrendo de câncer pulmonar, resultado de fumar uma carteira e meia de cigarro desde os 17 anos. John sabe que seu destino ao morrer será o sofrimento eterno no inferno, e assim Ennis cria uma trama angustiante, em que o leitor fica aos nervos torcendo com empatia para que John se cure, mesmo sabendo que este não pode usar a magia para isto.

As grandes editoras sempre tentaram usar suas histórias para a conscientização do abuso de agentes degradantes, mas nenhuma história teve tanto peso quanto Hábitos Perigosos, a situação fica mais urgente, quando o ritmo gradual e lento da história vai apresentando a John a realidade de sua condição – visitando um hospital em busca de tratamento, conhecendo outros pacientes com o mesmo tipo de problema – e mesmo no universo em que a história se situa, quando a magia se mostra ineficiente para ajudar Constantine – o Esnobe (ou Arcanjo Gabriel) se nega a oferecer auxílio ao mesmo tempo em que a súcubo Chantinelle diz que não há nada que possa fazer.

Hellblazer.43-018 (1)Infelizmente, a arte não segue o primor do roteiro em alguns momentos, sendo que na última história ela chega a ser bastante inconsistente. Se nos anos 90 os quadrinhos foram marcados por artes magníficas e roteiros fracos, aqui acontece o contrário. O esquema de colorização também é datado, tendo páginas e páginas utilizando apenas uma ou duas cores. Serve para o propósito da narrativa, mas não deixa de ser estranho se comparado com o atual modelo de colorização por computador. A arte de capa de cada edição é reproduzida entre os capítulos da história, e é algo que vale a pena gastar um tempo observando.

Hellblazer.43-014A magia é retratada de forma bastante sutil na história. Nada de bolas de fogo lançadas pelas mãos ou feitiços de voo, aqui a magia é algo misterioso e deve ser evitada sempre que possível. Coisas mais corriqueiras, como alterar a percepção que o porteiro tem dos trajes de Constantine ou estourar o pneu de um caminhão funcionam de forma coincidente, quase como se fosse algo natural. Já invocar demônios ou transformar água benta em cerveja requer rituais elaborados, que demandam tempo. O que faz de Constantine um excelente personagem não é o fato de usar magia, mas sim o modo que ele usa.

Hábitos perigosos foi o início de uma grande trama arquitetada por Ennis ao longo de sua passagem por Hellblazer, definindo o grande antagonismo entre o mago e o primeiro dos caídos, sem contar seu relacionamento amoroso com Kit, um dos mais duradouros que ele já teve. A história também inspirou o roteiro da adaptação cinematográfica estrelada por Keanu Reeves em 2005.

De forma geral, Hellblazer é a melhor porta de entrada para o universo oculto da DC Comics, histórias maduras com roteiros impecáveis permeiam todas as páginas, e Hábitos Perigosos é um destes grandes contos imperdíveis, porém esteja preparado, a magia sempre tem um custo.

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