A primeira temporada de 13 Reasons Why, adaptada para a televisão pelo dramaturgo Brian Yorkey, criou paisagens emocionais extremamente dolorosas que aterrissaram quase bem demais. Seu enredo suicida sensível caiu nas filas da família Netflix sem aviso. A série, agora em sua segunda temporada, promete ir mais além.

O problema é que 13 Reasons Why foi inicialmente atraente para os jovens espectadores, precisamente porque a primeira temporada foi tão cínica sobre os esforços padrão de adultos para impedir adolescentes de se envolver em comportamentos destrutivos ou abusivos. A série soube o quão desagradável um tom especial pós-escola soava e saiu do caminho para evitar o uso de um. Em seu lugar estava uma exposição radical dos traumas que podem levar ao suicídio, que o show rendeu graficamente sem vacilar.

A taxa de suicídios de adolescentes está aumentando, e a dinâmica social do ensino médio agora ocorre em telefones e perfis no Facebook, escondidos de adultos menos experientes em tecnologia. Assim, a história da primeira temporada de uma garota (Hannah Baker, interpretada por Katherine Langford), que é humilhada a ponto de se suicidar, teve valor, mesmo que alguns dos escrúpulos parentais também fossem justificados.

A segunda temporada, começa cinco ou seis meses depois dos eventos da primeira temporada, nos quais as fitas cassete que Hannah fez antes de seu suicídio, foram distribuídas para a comunidade. Como sua mãe, Olivia (Kate Walsh, em um desempenho comprometido e de partir o coração), leva a administração do ensino médio à corte por causa de seu papel na morte de Hannah. Todos os envolvidos com Hannah antes dela morrer são chamados ao tribunal. Seus depoimentos fornecem uma narração, para a segunda temporada, colocando o público no papel de júri de fato. De certa forma, funciona.

Mas todo o processo também força a história a recriar o caminho de Hannah para o suicídio, algo que já foi contado ao longo de 13 episódios de quase uma hora de duração. À medida que a série refaz seus passos, torna-se evidente que 13 Reasons Why mostra a escola mais dramática do universo: a segunda temporada introduz mais espancamentos, mais chantagens, vários relacionamentos secretos, tentativas duplas de suicídio, acidente de carro fatal, cyberbullying desenfreado e estupradores em série. Como muito disso ocorre em flashbacks para quando Hannah ainda estava viva, a platéia é convidada a acreditar que todos esses acontecimentos acontecem simultaneamente. Além de tudo isso, nas cenas atuais, o fantasma de Hannah começou a aparecer para Clay (Dylan Minnette) e agora, ela fala, em um desenvolvimento que parece especialmente absurdo para uma série que se propõe a ser dura e realista.

Para ter certeza, ser jovem é uma experiência vertiginosa e esmagadora, e uma semana aos 17 anos pode parecer até um ano para o espectador. Mas ressaltar a já repleta história de suicídio de Hannah com ainda mais adendos, ainda mais conexões secretas e mensagens confusas, faz mais para problematicamente glamorizar sua decisão de acabar com sua vida do que toda a primeira temporada fez.

À medida que a segunda temporada se aproxima de uma conclusão que já estava fortemente sugerida no final da primeira temporada, fica cada vez mais claro que a série não se trata de descobrir traumas, mas perpetuar a provocação. Sabíamos, com toda a probabilidade, que isso aconteceria. São inúmeras as séries que lutam para conseguir suas segundas temporadas. Mas a maioria desses programas não é sobre suicídio de adolescentes e agressões sexuais – e, embora a segunda temporada dela seja ainda mais consciente de seu material sensível, também é mais exploradora do que a primeira.

Dito isto, sua segunda temporada também pode ser maravilhosa. Embora o suicídio de Hannah seja banalizado no relato, a história de luto é de partir o coração: Kate Walsh e Brian d’Arcy James, como pais de Hannah, ancoram tudo enquanto os artistas mais jovens se envolvem em seu próprio drama. Os adolescentes sobreviventes são deixados com nada além da memória de Hannah, e até mesmo seu fantasma começa a revelar as limitações da morte. Em uma cena arrepiante de Lynch, sua boca se abre, apenas para revelar o som enlatado de sua voz em uma fita cassete. Os adolescentes que ela conhecia são frenéticos e desesperados, mas continuam vivos.

À medida que o julgamento avança, Clay fica obcecado em fazer o que o processo não pode: levar o estuprador Bryce (Justin Prentice) à justiça. Mas Bryce tem facilitadores que abrangem a comunidade, desde seu pai bem conectado com os donos da escola, seu treinador de beisebol e até seus companheiros de equipe no campo. O enredo engrossa quando alguém deixa para Clay uma foto polaroid misteriosa que mostra Bryce se aproveitando de mais uma garota inconsciente. Quando se trata de dinâmicas sociais e de gênero, 13 Reasons Why é especialmente consciente: presta muita atenção às gradações de privilégio entre alguns garotos brancos e outros, enquanto examina as várias maneiras pelas quais as garotas são vitimizadas pela cultura do estupro. Mas também é didático e descompassado. Jessica (Alisha Boe) testa a paciência do espectador ao passar de oito a dez longas horas recusando-se a nomear publicamente seu estuprador, apesar de todos na platéia presumirem que ela eventualmente o fará.

E, mesmo assim, até aqui, a dedicação da série em lançar luz sobre detalhes desconfortáveis ​​é revelada. Prentice, como Bryce, joga-se no papel do violador reincidente com notável autoconfiança. Os outros jovens artistas do show, incluindo Minnette, Miles Heizer e Devin Druid, também se lançam em retratos de meninos castrados e homens abusivos.

Em outros momentos, porém, a tendência do programa em encontrar o ponto de entrada mais brutal em um tópico é menos sincera. Assim como a primeira temporada terminou com o suicídio gráfico de Hannah, a conclusão da segunda temporada depende de algo horrível. E embora o compromisso da série de não evitar a dor seja admirável, também é difícil interpretar a violência que encerra o episódio 13 como algo além de preparação para outra temporada dolorosa, que com certeza apresentará ainda mais traumas vividos e revividos.

 

Confira o review da primeira temporada aqui.

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