Shazam-image-001Criado em 1939 e originalmente batizado de Capitão Marvel, o herói já havia ganho duas séries televisivas nos anos de 1941 e 1974, mas só agora foi o protagonista de um filme próprio. Dirigido por David F. Sandberg, Shazam! adentra uma jornada pautada em acreditar e elevar o potencial das pessoas, propondo indagações sobre o impacto de ações externas na vida de uma criança, e o que é uma família de verdade.

De forma competente, o filme entrega tudo o que promete e não tenta ser mais do que propõe. É um filme de herói, de origem, comédia e para todos os públicos, não sofrendo com extrapolações de piadas, já que a grande maioria se encontra devidamente colocada, e inclusive adicionando um tom sombrio em determinadas cenas.

O longa acompanha Billy Batson, um jovem que se perdeu da mãe ainda quando criança, tendo que se virar em orfanatos enquanto escapa da maioria das famílias adotivas para concretizar sua busca por aquela que ele julga ser sua real e única família. Isso muda, não inicialmente, quando o mesmo é adotado por um casal amoroso que também veio de lares adotivos, o que instantaneamente nos faz criar um laço entre eles e o protagonista, e que já possuem outros filhos adotivos.

Shazam-image-003A família é com certeza um dos pontos mais fortes do filme, apesar do tema heroico, eles que formam a base narrativa do longa. Os pais são genuinamente preocupados com as crianças, entendendo a peculiaridade de cada um e mantendo uma dinâmica prazerosa de se assistir. Os filhos, mesmo que em alto número, são bem explorados e expostos, Mary é a irmã mais velha, responsável e se preparando para a faculdade, Darla é a doce pequena que ama sua família e une os irmãos, Eugene representa o gamer juvenil e é responsável por ótimos alívios cômicos, já Pedro talvez seja o que mais peca de apresentação, praticamente entrando mudo e saindo calado.

Dentre todos os irmãos, o que claramente se destaca é Freddy, não apenas por conta do seu papel destaque, mas por sua personalidade. O personagem apresenta nuances interessantes na trama, desde fã empolgado, até  irmão cuidadoso, servindo como interlocutor do espectador, sendo aquele que segue de perto o herói, o que acarreta de forma positiva e negativa na sua vida. É incrível como o personagem pode ser odiado e ainda assim amado, conseguindo carregar o filme junto ao protagonista sem ser diminuído pela falta de poderes.

Shazam-image-006Já o protagonista do longa apresentam uma dualidade envolvente em suas duas formas, sim, muitos se enganam achando que ao gritar a palavra mágica, Billy seja substituído pelo herói Shazam, quando na verdade o campeão nada mais é do que Billy em todo seu potencial, o que é explicado pelo Mago. Inclusive a aparência do herói é a que Billy terá quando for um adulto, vide Reino do Amanhã que já apresenta o personagem nessa fase.

Falando no campeão da magia, os seis poderes ligados ao nome do herói são muito bem explorados, não jogados ao ar de forma gratuita, mas encaixados em situações de necessidade em sua maioria. Como descoberta inicial, o poder de Zeus confere magia ao herói, que a descobre de forma despretensiosa, a força física vem de Hércules, sendo apresentada junto com a resistência de Atlas durante o assalto, já a velocidade e capacidade de vôo, cortesias de Mercúrio,  são exibidas em momentos distintos e necessários. Estes são poderes mais visuais, de fácil constatação, mas os dons de Salomão e Aquiles são exibidos de forma sutil e pontual, muito atenciosa à trama, assim formando o anagrama SHAZAM.

Por ser uma criança, o herói  acaba agindo como tal em determinadas situações, ficando inclusive com medo do vilão, o que é plausível, e suas ameaças. Aqui entram os dois últimos poderes nomeados, que são apresentados para quem realmente estava prestando atenção ao filme. Mesmo atrapalhado, a sabedoria de Salomão é vista no momento em que o herói percebe que o vilão pode ser ferido, e de que forma, tudo durante um olhar insinuante. Já a coragem de Aquiles, mesmo com medo do antagonista, o campeão retorna para salvar sua família, inclusive se oferecendo para entregar seus poderes.

Shazam-image-002Mark Strong está bem no papel do vilão Dr. Silvana, e só. Se comparado à grandiosidade do orgulhoso Zod, eloqüência de Lex Luthor ou até mesmo ao charme malévolo de Orm, Silvana apenas serve ao seu propósito de forma passageira, mas vale lembrar que o filme também serviu de origem para o vilão, o que relativiza um pouco seus defeitos, mas requer uma atenção dobrada em uma futura reaparição do mesmo.

Em termos de ritmo, o filme inicia de modo um tanto demorado, a seqüência toda da infância do vilão poderia ser mais enxuta,  o que abriria espaço para desenvolver outros pontos no longa, mas como não é incompetente, só incomoda um pouco por se estender demais.

As cenas de ação não são abundantes, estão na medida certa, mas alguns cortes pontuais em certos momentos poderiam ser adiados. Ainda assim, o roteiro finaliza de forma costurada, com tudo encaixado, e pontas soltas praticamente inexistentes, é um filme sólido.

Shazam-image-005Infelizmente o mesmo peca na parte sonora, as músicas estão bem encaixadas, mas a trilha original passa quase despercebida. Por não contar com um tema intrínseco na cultura pop, como os medalhões Superman e Batman, a trilha original acaba não nos pegando pela nostalgia, deixando mais difícil o trabalho de se compor algo memorável.

Já os diálogos estão mais firmes que em Aquaman, ainda deslizam em alguns momentos na caricatura e pieguice, mas muito disso aqui funciona por se encaixar no que é proposto. Mas, novamente, o vilão é o que mais sofre com isso, sendo apresentado em uma cena suficientemente ameaçadora por si só, mas caindo na caricatura por querer se estender um pouco mais, até tentar gerar um alivio.

Shazam-image-007Shazam! trilha um caminho diferente dos seus antecessores, quais apresentavam heróis adultos e com responsabilidades. Aqui, visto pelos olhos mais próximos ao dos fãs, a dinâmica ganha força em compreender o mundo heroico ao seu redor, existe um Superman, um Batman, outros heróis, e uma criança pode ser um deles agora, pegando nosso lado leitor infanto-juvenil de jeito. Também acertando em não transformar o personagem em um herói estabelecido ao fim da jornada, mas apresentando uma curva evolutiva crível e compatível com uma criança que acaba de ganhar poderes mágicos.

Ao melhor estilo anos 80, com uma pegada de Quero ser Grande e muito coração, o Campeão da Magia resolve muito mais do que um embate com seu arqui-inimigo, ele joga sua luz sobre questões atuais como abandono parental, inclusão, adoção, família e o mais importante, o amor compartilhado. Ainda que hajam alguns tropeços, também existe muita superação, tudo com uma palavra mágica.

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PRÓS

+ Filme sincero consigo e com o público, não tenta ser mais do que é e entrega o que promete.

+ Comédia pontual e focada mais no expressivo do que expositivo, com poucos deslizes.

+ Elenco confortável em seus papéis, muito bem apresentados, com algumas ressalvas apenas.

+ Costurado de forma exemplar, o filme de encaixa perfeitamente e se sustenta sozinho.

+ Herói passa de forma única a sensação de uma criança que ganha poderes mágicos.

+ Curva evolutiva crível, ao fim da jornada protagonista evoluiu mas não de forma surreal.

+ Aborda temas contemporâneos e problemas sociais.

+ Diversas referências para os fãs, tanto aos quadrinhos quanto à cultura pop em geral.


CONTRAS

– Diálogos algumas poucas vezes expositivos e didáticos demais.

– Vilão não é destacável, apesar de cumprir sua função e ser sua origem também.

– Trilha sonora original quase imperceptível, notando-se apenas as músicas embutidas.


NOTA FINAL: 8.5 / 10

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